Raízes e motivos da criação do Bitcoin

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Last Update: Raphael Bastos 08:20, 21 Mar 2021 (BRST)
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Responsáveis:
* Patrick Tracanelli
* Rafael Tudela
* Raphael Bastos

Introdução

Raízes e motivos da criação do Bitcoin

O Bitcoin, em sua filosofia, tem como raiz um movimento que chamou a atenção do mundo todo no final dos anos 80 e início dos 90: o movimento cypherpunk – um grupo ativista que lutava pela autonomia dos indivíduos em relação aos seus dados.

O grupo estava interessado, já àquela época, em discutir políticas de privacidade e segurança na internet.

O termo cypherpunk é um trocadilho com as palavras cypher, referente à criptografia, e cyberpunk, nome da subcultura underground aliada às tecnologias de informação e cibernética, conhecida também pela sua resistência ao “establishment” e ao “mainstream”.[1]

Ao longo dos anos, o movimento proporcionou diversos projetos condizentes com os seus ideais, inclusive alguns que visavam criar um sistema financeiro distribuído pela internet, protegidos pela criptografia e que aumentasse a proteção do indivíduo em relação aos seus dados.

No entanto, nenhum dos projetos anteriores de sistema financeiro conseguiu manter-se em pleno funcionamento e cativar um grande número de usuários como o Bitcoin o fez.


Contexto do Anúncio – Crise do subprime

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Após a crise do subprime, em 2008, quando o sistema financeiro dos Estados Unidos colapsou em virtude de políticas de crédito altamente arriscadas e questionáveis, passou-se a desconfiar do sistema financeiro tradicional.

O gráfico abaixo mostra a mudança na relação de confiança que as pessoas tinham no sistema financeiro (2008-2013). Observe como a população da Europa e dos Estados Unidos perderam substancialmente a confiança nos seus sistemas financeiros, passando para baixo a linha dos 50%.

Gráfico de confiança nos Bancos E foi nesse propício momento que surgiu a proposta de criação do Bitcoin. Embora a forte coincidência temporal, não podemos afirmar que o Bitcoin surgiu em resposta direta à crise do subprime, pois há diversos sinais de que a ideia já vinha sendo trabalhada e aprimorada há um tempo.


Surgimento. Quem criou?

Dentro desse contexto, no final de 2008, surgiu uma proposta inovadora na internet, através de um documento técnico chamado de Whitepaper. O Whitepaper foi denominado: “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” e assinado por “Satoshi Nakamoto”.

Então temos a resposta objetiva para a pergunta quem criou o Bitcoin: a(s) pessoa(s) que se apresentou(aram) como Satoshi Nakamoto. No entanto, uma aproximação ao tema mostra que se trata de um pseudônimo (nome fictício), sendo que o(s) criador(res) até hoje não teve(tiveram) sua identidade revelada.

Permanece um mistério em torno de quem criou o Bitcoin. E, por respeito à intenção do(s) autor(es), nós preferimos deixar o mistério vivo.


O que é?

Nakamoto propôs a criação de um sistema financeiro alternativo ao sistema financeiro tradicional, combinando trocas e liquidação de pagamentos, no qual as trocas financeiras pudessem ser feitas diretamente de pessoa para pessoa (peer-to-peer – P2P), sem a necessidade de intermediários.

Sua intenção é que as pessoas pudessem fazer transferências e pagamentos sem a necessidade das instituições tradicionais do sistema financeiro, como bancos privados, bancos centrais, corretoras, etc.

O Bitcoin, então, é um sistema financeiro de base tecnológica, à base de governança descentralizada.

Houve outros projetos com intenções semelhantes à do Bitcoin, no entanto, ele foi o primeiro projeto do tipo que de fato ganhou adesão em escala mundial e não teve problemas que comprometessem seu funcionamento, permanecendo ativo até hoje e ganhando cada vez mais usuários.


Ou seja...

Se você está conhecendo esse novo mundo agora, fique calmo que aos poucos os conceitos começarão a fazer sentido.

Realmente, o Bitcoin trouxe um novo paradigma de sistema financeiro e entender todo seu funcionamento em um primeiro momento não é simples.

E agora você já sabe um pouco do seu histórico, o contexto do surgimento e, ainda, uma definição para o que é Bitcoin.

Persista nessa caminhada, porque esses conhecimentos serão muito valiosos no futuro.


Bitcoin é pirâmide?

Não, o Bitcoin não é pirâmide ou crime contra a economia popular. Para ser um crime, tem que ter um autor, um responsável. Quem seria neste caso? “Satoshi Nakamoto”? A casa de câmbio que compra e vende Bitcoins? Ou simplesmente o próprio consumidor, que entra num negócio que ele não entende direito?

Já em 2012 o BCE determinou que Bitcoin é legal

Vale a pena ler integralmente o relatório sobre Bitcoin de 2012 do Banco Central Europeu [2], uma autoridade cuja reputação no mínimo se compara à de Paul Krugman e Nouriel Roubini. A página 22 (pdf: 23) do relatório é dedicada à justificativa teórica de Bitcoin, referindo-se à escola austríaca, que se posiciona contra “fiat money” em favor do padrão de ouro.


A questão se Bitcoin é uma pirâmide (“Ponzi scheme”) é extensivamente discutida na página 27 (pdf: 28). No terceiro parágrafo, diz que, em teoria, não existe um organizador central que pode minar (burlar) o sistema Bitcoin e desaparecer com os fundos, condição necessária para ser um “Ponzi scheme” . Mas admite, no parágrafo seguinte, que existe uma assimetria de informação, devido à alta complexidade do sistema Bitcoin, e portanto é um esquema financeiro de alto risco. Ou seja, entre por sua própria conta e risco.

Seguindo esta linha, o Banco Central da Holanda decidiu que Bitcoin não é dinheiro, e a Autoridade Financeira decidiu que não é produto financeiro. Em maio de 2014 a justiça holandesa determinou que o Bitcoin deve ser tratado como se fosse um metal precioso, como ouro ou prata [3]. Em outras palavras, é um meio de troca, mas não é dinheiro. Desses metais o mercado determina um valor, e Bitcoin não é diferente.


Bitcoin é permitido no Japão, EUA e Europa

Observe que existem casas de câmbio para Bitcoin no mundo inteiro, em legislações muito atentas a essas novas tecnologias. Por exemplo, o documentário Banking on Bitcoin do Netflix (que todo mundo deve assistir) mostra como as autoridades financeiras de Nova York explicitamente permitiram Bitcoin e seus casas de câmbio.

Portanto, a observação que eu faço é que todos os países europeus, os Estados Unidos, e Japão chegaram ao consenso que Bitcoin em si é legal. A preocupação deles, como mencionado no relatório do BCE e recentemente repetido no G20, é com suas transferências não-rastreáveis, incentivando sonegação de impostos, pagamentos de drogas, lavagem de dinheiro etc. Mas repare, quando o FBI fechou Silk Road em 2013, ele poderia ter fechado Bitcoin também. Mas optou para deixá-lo aberto, preferindo tolerar e entrar com legislação, ao invés de lidar como uma reencarnação de Bitcoin 2.

E agora você me diz que é ilegal? Então, será que todas estas pessoas e autoridades estão erradas e que você tem razão? Com quais argumentos? Recorrer a Krugman ou Roubin não adianta. Krugman disse que Bitcoin é uma bolha (concordo) mas não que é ilegal [4]. Nouriel Roubin vai além, dizendo que o blockchain também é uma bolha (tendo a concordar) mas tampouco disse que Bitcoin é ilegal. Na verdade, nos EUA a questão da legalidade de Bitcoin já foi decidida alguns anos atrás, como Krugman e Roubin bem sabem.


Qual é o valor do Bitcoin?

Então, qual é o valor de Bitcoin? Antes de responder, deixe-me fazer mais perguntas:

Qual é o valor de um quadro de Van Gogh? Qual é o valor de uma tulipa negra?

Qual é o valor de um grama de ouro? Qual é o valor do Empire State Building? Qual é o valor daquela chácara no meio da mata? Como se diz em holandês: é o que o tolo paga. Ou seja, é o mercado que decide . Como disse o relatório do BCE: "[Bitcoin’s] exchange rate with respect to other currencies is determined by supply and demand and several exchange platforms exist."


Uma diferença óbvia é que ouro e prata têm uma realização física, enquanto Bitcoin é apenas uma sequência de bits. Mas isso é um argumento? O negócio da Google e Facebook também é “apenas” uma sequência de bits. Um documento assinado digitalmente com um certificado digital da ICP-Brasil também é “apenas” uma sequência de bits. E por outro lado, aposto que a grande maioria das pessoas que negociam ouro, nunca sequer viu uma barra do ouro na vida. Eles simplesmente negociam documentos, promessas. E se esses são digitais, sequências de bits.

Vale lembrar que, no passado, a humanidade usou vários objetos como dinheiro: conchas, pedras, contas, colares etc. (como Pato Donald já sabia :-).

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O caso dos Yap seja talvez o caso mais curioso — o seguinte vídeo no YouTube faz uma analogia interessante com Bitcoin: [5]. Também vale a pena ler o artigo do prêmio Nobel Friedman que, além de citar o dinheiro dos Yap, cita uma transação de ouro entre França e os EUA em 1933 (antes do Bretton-Woods e o “fiat money” de 1971), no qual o ouro não foi transportado mas ficou em Fort Knox, num armário separado com uma etiqueta: “Ouro da França” (final de pg. 2)[6]


Como o valor de ouro é sujeito aos caprichos do mercado, o Bitcoin também é. Concordo que Bitcoin é especulação de alto risco. É uma bolha? Sim. É volatil? Sim. É tolice? Sim, porque a grande maioria das pessoas nem entende o que é Bitcoin, mas quer entrar somente porque o valor está subindo, o que faz a valorização subir ainda mais. Repito: entre por sua própria conta e risco.

Mas não vejo onde está a pirâmide ou o crime contra a economia popular. Se pessoas optam por comprar ações numa empresa que não dá certo e levam prejuízo, eles também não podem reclamar no Procon. E apostar na MegaSena também é permitido, enquanto as chances de perder são bem maiores que no Bitcoin. Se amanhã, ao invés de comprar Bitcoin, todo mundo comprasse ouro, o valor de ouro também subiria para patamares atmosféricos, mas você não reclamaria, provavelmente. Seria uma bolha, mas não uma pirâmide, estou certo? Já houve este tipo de reclamação, de que o preço do ouro do mercado não tem relação com a realidade [7]. Então, em termos económicos, onde exatamente está a diferença intrínseco entre ouro e Bitcoin (além da volatilidade atual do Bitcoin, claro)? Eu não consigo ver.[8]


Referências: